quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Projeto Marreta: em defesa dos quintais com aves e árvores!


Sanhaço-cinzento (Tangara sayaca)
Se você algum dia chegou a acreditar que aves em liberdade só poderiam ocorrer longe do seu quintal/casa ou se tivessem garrafinhas na varanda com água adocicada (bebedouros artificiais) para atraí-las, está na hora de mudar de ideia!

Se não puder buscar pelas aves em áreas mais reservadas, a observação pode ser tão aprazível e proveitosa como aquelas empreendidas em áreas verdes urbanas como parques, praças, beira de rio e unidades de conservação dentro da cidade. Assim começa a valorização de dentro pra fora!


No quintal do Instituto Mamede, as janelas são, ultimamente, os locais mais habitados por humanos para contemplação da vida radiante que há no quintal. As árvores frutíferas estão cada vez maiores e nesse mesmo compasso mais aves nos visitam e quebram ora o silêncio, ora a monotonia dos ruídos urbanos, tornando a vida mais leve, agradável e bela. Pesquisas científicas provam o quanto estar junto da natureza eleva nosso humor, saúde e, de forma geral, nossa qualidade de vida.

O espaço não é grande, mas abriga um limoeiro (limão-rosa), jabuticabeira, pequizeiro, amoreira, pitangueira, coqueiro, primavera, goiabeira, mamoeiros, bananeiras, galhos de laranjeira lançados pela árvore da residência ao lado, e outras que ainda estão no porte de plântula. Primariamente, todas desempenham a função de poleiro, abrigo, depois se percebe que algumas se destacam também na oferta de alimento às aves.

Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)
Agora, por exemplo, é época de goiabas maduras e haja fôlego para tentar acompanhar cada rasante, cada nova visita, os movimentos de cada ave e os sons diversos e espontâneos que expressam diferentes comportamentos. Vira-e-mexe assiste-se à competição acirrada entre sabiás-laranjeiras e os dominantes bem-te-vis que se consideram os “ supremos donos do banquete”.

Na goiabeira costumam aparecer as espécies: sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), sabiá-poca (Turdus amaurochalinus), sanhaço-cinzento (Tangara sayaca), sanhaço-do-coqueiro (Tangara palmarum), bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), periquito-do-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri), periquitão-maracanã (Aratinga leucophthalma), maracanã-pequena (Diopsittaca nobilis), vivi (Euphonia chlorotica), pitiguari (Cyclarhis gujanensis), cambacica (Coereba flaveola), joão-de-barro (Furnarius rufus) que revira as goiabas caídas no chão em busca de insetos e minhocas, pica-pau-carijó (Colaptes melanochloros), rolinha-caldo-de-feijão (Columbina talpacoti), rolinha-picui (Columbina picui) e a choca-barrada (Thamnophilus doliatus) que, embora essencialmente insetívora, complementa a dieta com outros petiscos, por exemplo, frutos.
Filhote e adulto de sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris).
Jovem de guaracava-grande (Elaenia spectabilis).
Na natureza é assim, as regras nem sempre são rígidas demais, afinal tudo é dinâmico, cíclico e de complexidade quase indescritível.

Outro dia, tivemos a feliz surpresa de recebermos a visita de seis araras-canindés (Ara ararauna) que resolveram interromper o percurso de sempre a fim de fazerem uma parada para o lanche na goiabeira. Digo surpresa porque geralmente são vistas apenas voando por cima do Instituto em seus deslocamentos aéreos.

E os dias passam carregados de vida. O sabiá-poca, embora tímido e não permitindo muitas fotos, desafia comer uma outra goiaba enquanto passa despercebido pelos sabiás-laranjeiras e bem-te-vis. Mas ao ser descoberto, o jeito é se refugiar no limoeiro e buscar pelas minhocas no solo que nos ajudam na compostagem dos resíduos orgânicos.


E tem a guaracava-grande (Elaenia spectabilis), visitante de temporada, que alimenta o filhote, já grande, com pedacinhos de goiaba. Agora, momento tenso para as aves é quando o quiri-quiri (Falco sparverius) resolve aterrissar na goiabeira: é pio pra todo lado, seguido de silêncio aflito e prolongado!

Macho de choca-barrada (Thamnophilus doliatus).


À época dos mamões maduros, mais uma vez a choca-barrada foge à dieta exclusiva e arrisca bicadas no mamão já rompido pelos sanhaços. Nesse período, os sabiás-do-campo também aparecem e os sanhaços e saíras-amarelas fazem malabarismos gorjeantes em torno dos frutos.


Cambacica (Coereba flaveola).
No coqueiro aparecem pomba-asa-branca (Patagioenas picazuro) que nele faz ninho, o periquitão-maracanã, que por 4 vezes já fez ninho dentro do forro, encontro (Icterus pyrrhopterus), cambacica que ama as flores da palmeira, siriri-cavaleiro (Machetornis rixosa), piririta ou pelincho (Guira guira), bem-te-vi e, hoje, um sanhaço-do-coqueiro (Tangara palmarum) apareceu vasculhando as folhas em busca de alimento.
Filhote de canário-da-terra (Sicalis flaveola) sendo alimentado pelo adulto.


Nas cítricas, limoeiro e laranjeira, além de alguns dos citados, são vistos canários-da-terra (Sicalis flaveola), verão (Pyrocephalus rubinus), primavera (Xolmis cinereus), ferreirinho-relógio (Todirostrum cinereum) e siriri (Tyrannus melancholicus).

A embaúba cresceu e agora oferece alimento às graciosas saíras-beija-flor (Cyanerpes cyaneus) - outra surpresa! -, sanhaços, guaracavas e até para pica-pau-verde-barrado. A amoreira também já nos presenteou com visitas de maria-é-dia (Elaenia flavogaster), peitica (Empidonomus varius), peitica-de-chapéu-preto (Griseotyrannus aurantioatrocristatus), até do picapauzinho-escamado (Picumnus albosquamatus)!
As herbáceo-subarbustivas com flores são visitadas e, veementemente, disputadas por beija-flores-tesoura (Eupetomena macroura) e besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus). E, para que esses pequenos gostem de visitar regularmente seu jardim, prefira as plantas que produzam flores de cores vibrantes e sejam anatomicamente tubulosas como, por exemplo, as dos gêneros Ruellia, Russelia, Heliconia, e tantas outras plantas, cujas flores apresentam formato adequado ao tipo de bico dessas aves e guardam a recompensa (néctar) lá no fundo do aparato floral. A combinação dessas características estruturais: tamanho e forma de bico junto com formato e coloração da flor representa uma incrível estratégia desenvolvida pelas plantas para garantir a reprodução e a continuidade da espécie, através da polinização. Concomitantemente, constitui uma boa maneira desenvolvida pela natureza para harmonizar as interações e mostrar que a reciprocidade de benefícios (neste caso, mutualismo), de fato é vantajosa.

Macho de besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus).

Sabiá-do-campo (Mimus saturninus).
Assim, manter o quintal arborizado e/ou com um jardim, ainda que simples, é uma boa maneira de deixá-los naturalmente atrativos e assegurar a ilustre visita desses animais tão carismáticos. Chamo isto de paisagismo funcional.
E o interessante é que quando se começa a observar as aves, logo a árvore/planta onde a ave pousa e com a qual interage nos desperta atenção e adquire um outro significado na composição da paisagem. A ressignificação da paisagem a partir das aves.

Olhando para a árvore, o próximo passo é perceber, quase automaticamente, que outros animais dela dependem e a visitam, como formigas, borboletas, besouros, libélulas, lagartos e por aí vai. Ao direcionar o olhar para o solo, embaixo da árvore, nota-se a riqueza de fungos, de diferentes formas, tamanhos, texturas e cores, que ajudam na decomposição de matéria orgânica e consequentemente na adubação da terra. Ou seja, desencadeia-se um processo de observação naturalística e sistêmica e logo se conclui que a vida ou a natureza não consiste de um único elemento, não é estática, isolada ou individualizada, e ainda que um de seus elementos naturais nos chame mais atenção – como as aves neste contexto – quando se passa a observá-lo mais atentamente, percebe-se que existe uma infinidade de conexões que o sustentam e formam uma rede integrada de componentes que interagem entre si constantemente e concorrem para a estabilidade ambiental e integridade de vida.
Indivíduos de periquito-do-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri).


As aves, então, desenvolvem um tipo de dependência espontânea do quintal e não obrigatória, ou seja, aparecem, cantam e o embelezam quando se sentem motivadas. Acho mesmo que a relação das aves com as árvores tem muito mais que dependência alimentar e abrigo, tem a ver com cumplicidade!

Sejamos cúmplices da natureza!











Filhote de rolinha-caldo-de-feijão (Columbina talpacoti).
Experimente observar a vida que há no seu quintal e, se necessário, plante mais árvores e jardins, você terá a companhia quase constante das aves. Se não for possível plantar pelo excesso de concreto, então é hora de implantar o “Projeto Marreta” que prioriza a vida! O mesmo se resume a pequenas iniciativas que podemos buscar para tentar harmonizar nosso convívio com a natureza: mais amor e menos concreto. Afinal, é a nossa identidade e, no fundo, a única coisa que nos une neste planeta. Livre-se do excesso de calçadas!

Daí é procurar pelas aves sem precisar sair de casa e, por vezes, sem a necessidade de recorrer a equipamentos ou instrumentos sofisticados de aproximação. Prove: é bom, é saudável, é revigorante!


Sabiá-poca (Turdus amaurochalinus).

Já dizia Rubem Alves: “Viver não é o bastante. É preciso que haja beleza. Uma gota de orvalho não me faz viver ou morrer, mas sua magia me enche de gratidão e penso que valeu a pena o universo ter sido criado por causa daquele momento fugaz”. E o poeta passarinho complementa:
"Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos.
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach". (Manoel de Barros)


Faça do seu quintal um elemento importante para o Conceito Pleno de Lar, afinal é pra lá que a gente sempre volta (ou deseja voltar)!




Texto e fotos: Maristela Benites e Simone Mamede. Local dos Registros Fotográficos: Quintal do Instituto Mamede, Campo Grande/MS.

Obs. Neste texto estão listadas mais de 30 espécies de aves nativas que visitam ou já visitaram o quintal do Instituto Mamede e todas as fotos apresentadas foram feitas in loco. As aves que apenas sobrevoam o Instituto em seus deslocamentos ou executam voo do tipo pairado sobre ele como o gavião-peneira, gavião-carijó não foram aqui consideradas. Ficarão para um outro relato.
Para conferir a lista de espécies que já registramos consulte http://taxeus.com.br/lista/4842
Periquitão-maracanã (Aratinga leucophthalma).


E quando eles, literalmente, escolhem seu quintal como moradia a satisfação não pode ser outra: é definitivamente PLENA!
 


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Abertas as inscrições para o Curso de Cicloturismo em Áreas Protegidas - Parque Nacional das Emas




O Curso de"Formação em Técnicas de Planejamento e Implantação de Cicloturismo em Áreas Protegidas - Parque Nacional das Emas" é oferecido aos Monitores Ambientais desta Unidade de Conservação. O mesmo acontecerá entre os dias 01 e 03 de março de 2013 tendo como objetivos o Fomento do Cicloturismo no Parque Nacional das Emas e Entorno; a qualificação dos monitores ambientais que exercerão as atividades de condução de cicloturistas e outros técnicos do ICMBIO; assim como assegurar a qualidade da experiência do visitante na modalidade de cicloturismo em ambientes naturais e implementar de forma efetiva e qualificada a modalidade de Cicloturismo de baixo impacto em áreas protegidas.
Entre as atividades previstas estão:  Cicloturismo em Ambientes Naturais,  Elaboração e implantação de Circuitos de Cicloturismo em Ambientes Naturais, - Estudo de Viabilidade, traçado, definição de território, Gestão, elaboração de guia para o cicloturismo, infraestrutura de apoio ao cicloturista,- Circuitos de Cicloturismo para o Parque Nacional das Emas, Noções básicas de mecânica de bicicletas e Educação Ambiental. Maiores informações: institutomamede@gmail.com.