segunda-feira, 29 de junho de 2015

Expedição Aves do Chaco Brasileiro


Aves do Chaco brasileiro. Fotos: Simone Mamede

Quatro amigos, quatro histórias, quatro origens, quatro profissionais e um compromisso: documentar e observar as aves que habitam desse lado do Chaco, o extremo Chaco oriental.

Afinal, o que é o Chaco e onde está representado no Brasil?


Vitinho, Simone Mamede, Guto Carvalho e Maristela Benites. Foto: Claudio Pinho 
Sucintamente, o Chaco é um bioma composto de savana estépica com árvores que perdem maior parte de suas folhas na estação seca (caducifólias), com folhas miúdas (micrófilas) e com espinhos (espinescentes). Uma das maiores unidades fitogeográficas da América do Sul com cerca de 800 mil km² de extensão territorial, mas que tem perdido áreas significativas nas últimas décadas por substituição a pastagens exóticas principalmente. No Brasil, a única região contemplada com remanescente chaquenho está no território de Porto Murtinho-MS, consistindo de cerca de 9 mil km² de extensão. No entanto, o que percebemos localmente é uma larga faixa de transição entre Cerrado, Pantanal e Chaco. Se observarmos as classificações fitogeográficas utilizadas pelos vizinhos Argentina, Bolívia e Paraguai com quem compartilhamos o bioma, o nosso se encaixa em Chaco úmido.
Mapa da distribuição das áreas de Savana Estépica (Chaco) na planície do Pantanal. Fonte: Silva e Caputo, 2010.
Coleiro-do-brejo (Sporophila collaris). Foto: Victor Nascimento

A alta densidade de carandás, paratudos, piúvas, baías e campos inundados, vez ou outra, nos relembram que também estamos em solo sul-pantaneiro. Mas, e as aves?
                                                                                 
A   expedição, que teve como intuito observar as aves dessa   região, começou bem da verdade, muito antes da viagem, propriamente dita.





Foram vários convites, articulações, reuniões, telefonemas, e-mails, ofícios e lá se passou 02 anos! Até que chegou! Um coletivo de amigos se mobilizou, organizou agenda e tudo saiu mais que perfeito. 


Já no primeiro dia, melhor dizendo, na primeira tarde fomos recepcionados na região da Serra da Bocaina por uma linda águia-cinzenta (Urubitinga coronata), espécie rara e ameaçada de extinção. Mesmo voando longe e alto, era impossível não reconhecer aquele animal belo e imponente. A partir daí só expectativa só foi aumentando. 
Águia-cinzenta (Urubitinga coronata), jovem. Foto: Simone Mamede
 À tarde partimos para uma visita em área próxima à sede do município, cerca de 03 km, às margens da rodovia. Tratava-se de um campo sazonalmente inundável com pouca água e muita lama em vários pontos, circundada por baía e bastante taboa (Typha domingensis). Apesar de tudo aparentemente calmo e parado, foi só descermos do carro para constatarmos que, felizmente, o cenário não era bem este. De súbito, encontramos tijerila (Xenopsaris albinucha), canário-do-campo (Emberizoides herbicola), tico-tico-rei (Lanio cucullatus), suiriri-cinzento (Suiriri suiriri), canário-da-terra (Sicalis flaveola), sabiá-gongá (Saltator coerulescens) e tantos outros. Caminhamos um pouco mais, cerca de 20 m e lá estava um casal de viuvinha-de-óculos (Hymenops perspicillatus). No chão todo, cuidado era pouco para não espantar as dezenas de batuíra-de-coleira (Charadrius collaris), corta-água (Rynchops niger), jaçanãs (Jacana jacana) e os corucões (Chordeiles nacunda) fingindo-se de fezes de boi e cavalo. Depois de várias surpresas era hora de regressar. Não apenas nós como também os mais de 1000 garibaldis (Chrysomus ruficapillus) que aos bandos chegavam para pernoitarem no taboal, juntamente a outras aves.
Cochicho (Anumbius annumbi). Foto: Simone Mamede
Ema (Rhea americana)
Definitivamente, Porto Murtinho respira aves e água. Se o rio Paraguai banha o cenário limítrofe entre Brasil e Paraguai, o céu se torna pontilhado de aves em vários momentos do dia, e no horizonte terrestre é comum se deparar com algarrobas (Prosopis spp.), aromitas ou espinilhos (Acacia farnesiana), carandás (Copernicia alba) e outras. No campo, engana-se quem pensa que a vegetação é aberta e de fácil deslocamento entre as plantas. Para ver mais de perto a choca-da-mata (T. caerulescens paraguayensis), o caneleiro-verde, os tiribas-fogo (P. devillei) e outros, perde-se o chapéu que ficou enganchado nos espinhos, a camisa que se prendeu e/ou a calça que esbarrou nesse ou em outro cacto, lá conhecido por tuna. Aliás, outro ponto alto da expedição foi conviver com uma riqueza sociolinguística incrível, nomes muito particulares a elementos bem conhecidos por nós, mas com outros nomes (ex.: cacto/tuna, saracura-três-potes/chiricote, aracuã-do-pantanal/charata, anu-branco/piririta, periquito-de-cabeça-preta/ñanday etc. A influência da cultura paraguaia é muito presente, o que deixa tudo mais rico e especial por lá.
Pica-pau-de-barriga-preta (Campephilus leucopogon). Foto: Simone Mamede
Nosso primeiro amanhecer foi irrompido por iraúnas-de-bico-branco (Procacicus solitarius), sabiás-gongás (S. coerulescens), cardeais (Paroaria capitata), galos-campinas (Paroaria coronota), além de vários casais de araras-vermelhas (Ara chloropterus) que se penduravam nas árvores das casas que generosamente as recebem. Quintais arborizados significam fartura em múltiplos aspectos.
Visitamos alguns locais dentro do perímetro urbano e 02 destacamentos do exército brasileiro (2ª Cia Fron): Destacamento da Ingazeira e Destacamento Barranco Branco. Até a Ingazeira foram inúmeras paradas, o percurso de 60 km que normalmente costuma durar 2 horas, levamos a manhã toda para chegarmos ao destino. Observação de aves tem muito disso, muitas vezes não há um destino específico, porque a travessia é o mais importante. A primeira parada foi para observarmos grupo misto de papa-capins, em especial, o caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxantha). É uma espécie oficialmente ameaçada de extinção, principalmente pela perda de hábitat, uma vez que depende de campos nativos para sobrevivência.
Pica-pau-de-testa-branca (Melanerpes cactorum). Foto: Simone Mamede
Na Ingazeira encontramos inúmeras aves e várias espécies que merecem destaque: pica-pau-de-barriga-preta (Campephilus leucopogon), pica-pau-de-testa-branca (Melanerpes cactorum), azulão (Cyanoloxia brissonii), tecelão (Cacicus chrysopterus), figuinha-de-rabo-castanho (Conirostrum speciosum), joão-do-pantanal (Synallaxis albilora), saci (Tapera naevia), surucuá-de-barriga-vermelha (Trogon curucui), gavião-preto (Urubitinga urubitinga), saracuruçu (Aramides ypecaha) e tantas outras. Na volta, fomos agraciamos com o avistamento de papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis), espécie rara e outro indivíduo de águia-cinzenta (U. coronata). Sim, em dois dias consecutivos e em locais distintos encontramos duas águias-cinzentas!
Os grupos mais representativos que encontramos foram: icterídeos, ou seja, dos pássaros-pretos, chopins e afins (12 espécies), pica-paus (07 espécies). Grupo com baixa riqueza foi dos papa-moscas 
Papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis). Foto Simone Mamede
(tiranídeos), muito provavelmente tem a ver com a sazonalidade, cujas espécies em grande parte, está em migração a procura de áreas para invernada onde há alimento disponível (insetos e outros artrópodos) e clima favorável neste período do ano.
Em Barranco Branco, encontramos diversidade surpreendente com destaque à: joão-pinto (Icterus croconotus), tiriba-fogo (Pyrrhura devillei), jacutinga (Aburria cumanensis), arapaçu-verde (Sittasomus griseicapillus), choca-da-mata (Thamnophilus caerulescens paraguayensis), sanhaçu-de-fogo (Piranga flava), caneleiro-verde (Pachyramphus viridis), bandos de aratinga-de-testa-azul (Thectocercus acuticaudatus), de caturritas (Myiopsitta monachus), periquitos-de-cabeça-preta (Aratinga nenday), dentre outras.
João-pinto (Icterus croconotus)
As 48 horas de observação resultaram em  aproximadamente 200 espécies observadas, ou seja, cerca de 05 espécies diferentes por hora! Diante do pouco esforço amostral e sazonalidade – isto é, há que se considerar que estamos na estação seca, onde muitas espécies estão emigrando – os dados se mostram inconclusivos e nova campanha já está sendo planejada. Das 282 espécies apresentadas para essa região por Straube et al. (2006), os quais apresentam uma compilação de listas incluindo dados primários, 17 espécies representam novos registros: águia-cinzenta (U. coronata), suindara (Tyto furcata), bacurau-de-rabo-maculado (Hydropsalis maculicauda), arredio-oliváceo (Cranioleuca obsoleta), papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis), caboclinho-de-barriga-vermelha (Sporophila hypoxantha), azulão (C. brissonii), garibaldi (Chrysomus ruficapillus), dentre outras.
Durante a expedição cremos que vários olhos foram tocados e contagiados pelos simples exercício de parar, olhar ao redor e ouvir a natureza, especialmente as aves. A observação de aves não está limitada à profissão ou qualquer outro tipo de segregação de grupo, mas tem proposta inclusiva e multidisciplinar, de modo a fomentar uma maneira diferente de interagir com a natureza. A percepção é um dos fundamentos dessa prática naturalista.
Corucão (Chordeiles nacunda
Encontro com Papa-moscas-canela. Foto: Maristela Benites
Os quatro amigos regressam aos seus lares, ao menos, quatro vezes mais felizes e na perspectiva de contribuir para que a observação de aves se torne prática conhecida e adotada pela população e pelo turismo em Porto Murtinho. Que as aves contribuam para ampliar o sentimento de orgulho de ser do e estar no Chaco brasileiro, portanto amado e protegido.
A Expedição Aves do Chaco Brasileiro composta pelos profissionais: Maristela Benites (Ornitóloga - Instituto Mamede) Guto Carvalho (Coordenador do Avistar Brasil) Victor Nascimento (Guia de Observação de Aves - Vitinho Birdwatching) e Simone Mamede (Bióloga e Educadora Ambiental - Instituto Mamede) só foi possível graças ao empenho dos quatro amigos e de outros tantos – amigos e/ou parceiros: Gleidson Melo, Cel. Queiroz do CMO de Campo Grande-MS, 2ª CIA FRON de Porto Murtinho, Prefeitura municipal de Porto Murtinho, Secretaria Municipal de Turismo, Câmara de Vereadores e todos os demais companheiros que carinhosamente nos receberam e alguns deles nos acompanharam.
A lista de espécies das aves encontradas encontra-se disponível em:
O Projeto Aves do Chaco está apenas começando, as próximas expedições estão previstas para agosto  e novembro de 2015  envolvendo ações em Educação Ambiental, Pesquisa e cidadania. Um elo entre o Cidadão Cientista e a transformação de Territórios Sustentáveis.